O educador José Pacheco na palestra Cidades Educadoras, parte do evento Educação 360 Foto: Andre Lima / Agência O Globo. 


A educação não pode ficar restrita ao espaço da escola, ao contrário, deve ser uma atribuição de toda a cidade. Mas o que as sociedades estão fazendo para corrigir os erros históricos desse processo? Os questionamentos estiveram presentes no debate "Cidades educadoras", durante o evento internacional Educação 360, nesta quinta-feira. Ao longo da discussão, educadores criticaram a segregação cada vez mais presente nas cidades contemporâneas e apontaram a distância entre a escola que existe atualmente e aquela que se espera para promover um ensino mais inclusivo.
O Educação 360 é uma realização dos jornais O GLOBO e “Extra”, com parceria do Sesc. O evento tem o patrocínio da Fundação Telefônica, do colégio pH e Fundação Itaú Social, e conta ainda com o apoio da Unesco e Unicef. O encontro também é uma parceria de mídia da TV Globo, Canal Futura, revista Crescer, revista Galileu e TechTudo.
— As cidades são arquipélagos e agora com as novas tecnologias intensificou a solidão. A solidão se manifesta no shopping, no aeroporto, no bunker que são os condomínios. No bunker que é a escola, que cria alambrados para se defender da comunidade — analisou o educador português José Pacheco.
O especialista criticou a percepção atual, promovida por esse isolamento, que separa a escola da sociedade. De acordo com ele, o modelo escolar em curso atualmente no Brasil, embora haja iniciativas positivas no país, precisa ser totalmente modificado para atender aos anseios dos jovens e impedir que mais estudantes tenham aprendizagem inadequada. Para ele, os educadores precisam se comunicar e aderir a novas práticas ao contrário de insistir em um "modelo obsoleto"
— Por que os alunos não veem na escola uma oportunidade de transformação de vida? Porque o conceito que eles têm é o conceito que normalmente se tem, de que é o lugar onde tem que ficar 4 horas por dia, ouvir alguém falar de algo que não te interessa, num contexto social que é completamente contrário ao de sua origem. Até hoje se convencionou a separar escola da comunidade. A cidade é escola e a escola é a cidade- disse. - Continuo a manter o tom da indignação. O Brasil precisa fazer o que já devia ter feito há muito tempo e só não faz porque os educadores não se comunicam. O Brasil tem que compreender essas múltiplas violências, como jovens que saem da escola e vão alimentar a indústria do tráfico e da prostituição, resultam do modelo educacional obsoleto, criminoso e excludente que vem da revolução industrial.
Ex-secretário de Educação da prefeitura de São Paulo, Fernando Almeida discordou de Pacheco.Para ele, não se pode jogar fora todas as práticas já construídas. Almeida falou ainda que é contraproducente desacreditar a escola brasileira e todos seus professores. O especialista destacou ainda a necessidade de construir uma política pública que esteja alinhada com as características da sociedade brasileira.
— Não posso ter ações isoladas. Não adianta fazer pequenas experiências e contar exemplos de pessoas fantásticas. Não há hoje por parte do projeto social brasileiro, econômico e cultural, algo que possa encantar a escola. Quem nos deve um projeto para construir junto com a escola é a sociedade toda. Indignar-se contra escola é sinal que não participei dela. Agora que o Brasil colocou 98% das crianças dentro da escola dizer que a escola não presta é uma covardia com as pessoas que estão la dentro.
Debate 'Cidades educadoras' durante Educação 360
Debate 'Cidades educadoras' durante Educação 360 Foto: Andre Lima / Agência O Globo
Durante a apresentação, o coordenador de gestão pedagógica do estado do Ceará, Rogers Mendes, apresentou o projeto "Juventude em tempo integral", que pretende ampliar o número de escolas de tempo integral no estado. A proposta prevê que até 2030 todas as escolas de ensino médio da rede funcionem nesse modelo. Haverá um formato de ensino integral para as escolas regulares e outro para as instituições que oferecem ensino profissional. Na apresentação, Mendes defendeu que para replicar uma política em larga escala, muitas vezes, é preciso distanciar um pouco de modelos pilotos que, embora excelentes, são muito difíceis de serem universalizados.
— Eu não consigo montar uma nova estrutura pedagógica fora da escola no modelo atual. Eu preciso dialogar com o que está hoje fundamentado. Não conseguimos parar de ofertar o serviço para mudar a cabeça das pessoas. Todas as experiências brasileiras que começaram com vitrine não foram replicadas, seja porque gastou-se demais, ou outros motivos. O tempo da gestão pública no Brasil com todos problemas graves que temos não nos permite fazer pilotos. As intervenções têm que chegar a todas as pessoas.
Uma iniciativa que a cada ano alcança mais gente foi apresentada pelo Sesc de São Paulo durante o debate. O projeto Curumim, que começou há 30 anos, tem como premissa promover um desenvolvimento integral da criança por meio de brincadeiras e atividades que colocam o jovem em contato com a cidade. Presente em 30 unidades do Sesc em São Paulo, o Curumim tem atualmente 3.692 crianças inscritas. Para Maria Augusta Maia, da gerência de estudos e programas sociais do Sesc, além de promover valores como cooperação e protagonismo, o projeto faz com que as crianças aprendam a tirar proveito das relações sociais que encontram na cidade.
— As relações que se dão na cidade são educativas tanto para o bem ou para o mal. Mas o encontro educa a cidade com todas suas questões, podemos potencializar o encontro para que eduquem e tragam crescimento. Precisamos retomar a cidade para nós. Muitas vezes nos trancamos e não temos mais esse lugar de encontro e nos percebermos como sujeitos educadores — disse.
Fonte: Extra